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Sorriso Feliz! na revista Saúde Oral



Foto : Dr. Cassiano Scapini numa intervenção
no Sorriso Feliz!


SAÚDE ORAL é uma revista profissional de Estomatologia e Medicina Dentária, lida por todos os profissionais que actuem nestas áreas (Dentistas, Estomatologistas, Higienistas Orais, Protésicos, Ortodentistas) e pelos estudantes de medicina dentária.

Na sua edição n.º 50, dá a conhecer, através de um dossier sobre Intervenção Comunitária, os programas que, na área de Saúde Oral, apoiam a população carenciada em Portugal.

Leia abaixo a transcrição desse dossier ou clique aqui para ver a noticia original.

“Intervenção comunitária

Dar sem receber


Assinalou-se, a 31 de Agosto, o Dia Internacional da Solidariedade.
Considerada um dos valores fundamentais para as relações humanas neste
século, dentro da comunidade médica dentista ela parece existir.
Os bons exemplos estão aí.

Maria (nome fictício) corre pelo pátio de um dos centros de apoio da Legião da Boa Vontade (LBV), no Porto, juntamente com mais de duas dezenas de amigos. Tenta não ser apanhada pelos «bichinhos» que podem fazer mal aos dentes. Corre, finta e solta alguns gritos de brincadeira, à medida que vai escapando dos colegas que a tentam apanhar. "O jogo da bactéria" é uma das actividades organizadas pelos voluntários do programa "Sorriso Feliz", que percorre instituições do Porto, promovendo a higiene e a saúde bucal.

Com pouco mais de seis anos, Maria não entende ainda muito bem qual o objectivo de todo aquele aparato. «A minha mãe diz que tenho dentes de leite e que não preciso de os lavar porque, mais cedo ou mais tarde, vão cair».

Este é um exemplo de como a intervenção comunitária é tão importante. Portugal tem elevados níveis de cárie dentária entre os jovens, consequência da «falta de uma política de prevenção por parte das autoridades que, ao longo dos anos, têm transmitido a ideia do médico dentista como curador de uma doença e não como preventivo». Afirmação de Cassiano Scapini, médico dentista que investe parte do seu tempo no voluntariado.

«Não podemos ficar reféns do consultório. Devemos, sim, assumir os nossos compromis-sos para com a comunidade», defende com convicção. «No século XXI já não faz senti-do pensar, apenas, em reabilitação dentária. A nossa função é cada vez mais informar e acompanhar o utente para evitar o aparecimento de doenças», refere. O profissional não concebe a sua função sem dedicar várias horas do seu dia «a trabalho social». Até porque, só assim, acredita, se poderá mudar o panorama da saúde oral em
Portugal que, considera, é «catastrófico». Todavia, sugere, «a pergunta a colocar deve ser: qual o papel no médico dentista na sociedade?»

Cassiano Scapini, médico

Vindo do Brasil há 18 anos, acabou por instalar urn consultório no Porto, mas isso nunca lhe chegou. Acérrimo defensor de uma postura diferente dentro da classe a que pertence, considera que a profissão de médico dentista deve estar voltada para o «acompanhamento» e não para o «tratamento» das doenças bucais. «É importante estar ao lado das crianças, sempre envolvendo a família», porque, muitas vezes, é preciso explicar aos pais alguns conceitos de saúde oral que desconhecem. «Arrancar dentes sempre foi dado como uma fatalidade na mentalidade dos mais velhos».

Cassiano Scapini resume, assim, numa frase, a importância que dá ao trabalho que faz como voluntário, nas diversas acções em que tem participado: «o voluntariado é um bom termómetro para mudar as emoções do profissional. À medida que estiver inserido nesse contexto, vai pensar diferente também». Acredita, pois, que a mudança é imprescindível e premente: «se temos tantas carências, o conhecimento é a melhor arma para mudar o cenário actual». Daí que, defende, a transformação deve surgir dentro da própria classe que não deve temer uma nova filosofia de trabalho, porque o médico dentista vai sempre existir, só com uma atitude diferente: «não de tratar, mas de prevenir».

Educar para mudar

É uma questão que talvez poucos coloquem a si próprios. A Assistência Médica Internacional (AMI), por exemplo, só tem registo de um médico estomatologista que tenha participado em campanhas de voluntariado dentro daquele organismo e a associação "Médicos do Mundo" nem sequer tem nomes dentro deste espectro profissional.

Ainda assim, existem diversas actividades às quais dezenas de médicos dentistas acabam por aderir. Só que esta é uma realidade que não se verifica com frequência. «O Sistema Nacional de Saúde (SNS) ao não abarcar esta classe, obriga a que o médico dentista seja forçado a operar no sector privado e, por isso, ou ele está no consultório ou então não consegue rendimentos para vive», explica Jacinto Durães. O gestor do "Ambulatório da Saúde Oral", da Universidade Fernando Pessoa, reconhece que, «no geral, a cultura voluntária é fraca, comparada com o que acontece no estrangeiro». E até a solidariedade entre pares parece não existir. «Muitos pensavam que seríamos concorrentes», segreda, em relação a críticas que recebeu depois de lançar o projecto que coordena.

Cassiano Scapini explica que esta atitude dentro da própria classe é criada logo na Faculdade. «O ensino em Portugal está assente numa filosofia que não se baseia na prevenção. Cientificamente, sabe-se que o atendimento curativo não se traduz numa melhoria das necessidades. Só a prevenção. E, sendo esta uma questão de saúde pública, deve-se mudar a formação académica. Talvez, depois, tenhamos mais profissionais a participar em projectos de cariz social», opina o brasileiro, radicado em Portugal há 18 anos. «A Universidade tem que se abrir à comunidade», resume.

Apesar de reconhecer a importância do voluntariado, Cassiano Scapini considera que «a discussão é muito mais profunda. Temos que chamar, para dentro da comunidade, estas questões que têm a ver com a forma como as faculdades ensinam. Enquanto isso não acontecer, continuaremos a ter, somente, iniciativas pioneiras».

Até dar é difícil

É caso da associação "Mundo a Sorrir", que engloba já mais de 240 médicos dentistas portugueses que, «do seu próprio bolso», participam em iniciativas de apoio e promoção da saúde oral no estrangeiro. «Existimos há dois anos e não temos capacidade para acolher todas as inscrições, por isso vamos alternando os voluntários», explica Manuel Fontes de Carvalho, presidente da Associação Dentária Lusófona (ADL) e também presidente da Mesa da Assembleia da "Mundo a Sorrir". Mas os contactos que tem encetado com outros países de língua oficial portuguesa levam-no a acreditar que era possível haver mais. «É consequência do mercado que temos», assume.

Estes, também, são outros tempos. Recentemente, numa entrevista à "Rádio Renascen-ça", Fernando Nobre, presidente da AMI, confirmou que «ser solidário e arranjar voluntários, neste início de século, é cada vez mais difícil». Depois de 22 anos à frente da instituição, o médico constata que «esta sociedade é extremamente neo-liberal, que aposta, sobretudo, no estrato social».

Ao trabalhar com motivos altruístas, carimba-se um contrato de gratuitidade, é certo, mas também de obstáculos que, por vezes, revelam-se caricatos. «Na altura em que era bastonário da Ordem dos Médicos Dentistas, estive em Moçambique, em visita oficial, e depois da realidade precária que lá encontrei, decidi ajudar. Mas o material que consegui reunir em Portugal nunca chegou a partir por falta de organização da parte deles». Não é o único a queixar-se. «Cheguei a encontrar muito entraves em autarquias onde pretendíamos levar o Ambulatório», recorda Jacinto Durães, sem revelar casos concretos. «É preciso muita determinação» e, ao que tudo indica, bastante paciência. «Todos os anos, enviamos milhares de cartas para empresas e instituições a pedir qualquer contribuição que seja e a resposta que obtemos é quase sempre negativa».

Descoordenação nacional

Outro dos problemas apontados resume-se numa palavra:
descoordenação.A saúde dentária tem sido maltratada em Portugal e embora muitos res-ponsáveis reconheçam melhorias, «ainda há um longo trabalho pela frente», como não esquece Manuel Fontes de Carvalho. Em matéria de trabalho de campo, o país vive num limbo, pautando-se pelas iniciativas locais, as quais pecam por serem esporádicas e sem perspectivas de longo prazo. «É necessário concertar o trabalho feito por todos para que não haja sobreposição de actividades», começa por sugerir Manuel Fontes de Carvalho. «Lá fora, o voluntariado está sedeado em instituições onde as pessoas se dirigem para prestar ajuda. Em Itália, por exemplo, existem duas organizações dentárias, em Espanha há um grupo que está, neste momento, em África. Em Portugal, está tudo disperso», desabafa o presidente da ADL, que admite chegar a incorrer nesse erro quando, por iniciativa própria, e sem nenhum plano nacional perfeitamente estruturado, monta, juntamente com os seus alunos, um consultório «no meio da rua, para ensinar a população algumas regras básicas de saúde dentária». Embora seja uma iniciativa «lou-vável», frisa, «não produz efeitos a longo prazo».

Pode-se, então, afirmar que o panorama da saúde oral, em Portugal, é o resultado de décadas sem educação cadenciada. «Só poderemos ultrapassar estes problemas se tivermos um plano a nível nacional. O que o Governo implementa no terreno [Programa de Promoção de Saúde Oral nos Adolescentes] tem sido importante e dará os seus resul-tados», garante o ex-bastonário, mas não chega e, até nas palavras de Cassiano Scapini, «não produz efeitos visíveis».

Ainda que reconhecendo a falta de organização existente no trabalho de intervenção comunitária, o presidente da Sociedade Portuguesa de Estomatologia e Medicina Dentária (SPEMD) acredita que esta é, também, a explicação para a falta de números a nível nacional. «Há muito mais voluntários do que pensamos, mas como não estão registados, não temos maneira de os contabilizar. Essa é, aliás, uma das características do voluntariado: a ausência de promoção pessoal».

Além das iniciativas conhecidas do público, os responsáveis acreditam que «um número incontável de médicos dentistas» são voluntários dentro do seu consultório. «Por vezes, o que acontece é que uma escola contacta determinada clínica para ajudar em certos casos ou fazer uma campanha. Há, ainda, faculdades que percorrem uma região em trabalho de prevenção mas, depois, já não voltam lá. Acaba tudo por ser resultado de um impulso imediato», atira Manuel Fontes de Carvalho. A solução, sugere o presidente da ADL, é que seja o Ministério da Saúde a liderar este trabalho, porque, avisa, «estamos a gastar dinheiro e não temos depois resultados a longo prazo, nem dados epidemiológicos concretos».
O cerne do problema mantém-se. «Existem projectos vastos que precisam muito de voluntariado e ainda não sentimos que haja uma grande disponibilidade por parte das pessoas», frisa Manuel Fontes de Carvalho.

Futuro auspicioso

Apesar de todos os obstáculos, o cenário está mudar. «Existem mais de cinco mil médicos dentistas registados e estamos a formar 600 por ano. Seguramente, com a implementação do estágio obrigatório no final do curso, poder-se-á sensibilizar os futuros profissionais para o trabalho do voluntariado, nem que seja», ressalva Manuel Fontes de Carvalho, «como arranque de uma carreira, como já acontece noutras profissões».
Jacinto Durães defende, também, que os bons exemplos vão produzir o efeito bola-de-neve. «Às vezes, a iniciativa de alguém leva a que outro o acompanhe», explica o coordenador do "Ambulatório", que não se coíbe de dar o exemplo. «Tenho aprendido que o país, precisa deste género de actividades, para que as populações se sintam protegidas. Também tenho percebido que a solidariedade é um bem essencial para vivermos uns com os outros».

Manuel Fontes de Carvalho acredita que há disponibilidade de muita gente e mostra-se esperançoso: «campanhas como as que faço com os meus alunos poderiam existir em todo o país porque há empresas de equipamento prontas a ajudar e instituições com vontade em as acolher».
Em Outubro, decorre mais uma "Mês da Saúde Oral". Uma campanha que poderá ser, nas palavras do presidente da SPEMD, a actividade «mais abrangente, a nível nacional, e que envolve mais utentes e médicos dentistas num mesmo objectivo: «ajudar quem precisa». Desde que a iniciativa foi criada, há sete anos, foram abrangidas 50 mil pessoas e o número tem vindo a crescer anualmente.

Ainda assim, Cassiano Scapini não desarma e sublinha a mudança necessária. «O médico dentista precisa de sair do consultório. É preciso mais, e todas as boas vontades, por muito pequenas que sejam, têm que ser aproveitadas». O médico dentista lança o desafio à classe e aponta baterias já para o próximo congresso da OMD), que se realiza em Novembro. «É só colocar esta questão na lista de assuntos a debater».
Depois de terminado "o jogo das bactérias", Maria lava os dentes e aprende como, na pratica, se matam os «bichinhos» que lhe «fazem mal à boca». Mostra um largo sorriso e diz: «já está. Agora não me posso esquecer de os lavar antes de deitar». Esperemos que não.

Paulo Oliveira

Todos os dias, centenas de crianças, de bairros carenciados do Porto, são recolhidas pela Legião da Boa Vontade (LBV) e distribuídas pelos centros da instituição ou outros locais onde passam o dia, como escolas e ATLs. Contratado pela LBV para trabalhar no programa "Sorriso Feliz", Paulo Oliveira acompanha a saúde oral de mais de 1200 menores, «muitos dos quais nunca pegaram numa escova».

Decidiu trabalhar neste projecto «porque gosto da comunidade e ou estava num centro de saúde ou vinha para a LBV e, aqui, trabalho com uma maior variedade de pessoas, desde toxicodependentes a prostitutas». Já esteve em Braga e no Alentejo, «onde há menos cáries que no Norte», afirma, mas este «é um meio [Grande Porto] mais carenciado».

Além da parte teórica, o higienista oral desenvolve uma série de actividades práticas que tentam promover a prevenção de problemas bucais na população. «Já tivemos propostas para trabalhar em Guimarães e noutros locais, mas não temos capacidade». As acções vão variando: «hoje falamos sobre o açúcar, da próxima vez que fizermos a visita a este centro poderá ser sobre a cárie ou a placa bacteriana».

As crianças respondem bem e participam, porque muitas não têm esta atenção em casa, e não são incentivadas pela família. Por isso, o trabalho passa, também, por falar com os progenitores, uma tarefa que «nem sempre é fácil».

Ainda assim, Paulo Oliveira reconhece que «era bom que houvesse mais médicos dentistas a ajudar. Mas, por falta de tempo, disponibilidade ou informação, poucos participam».”





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